Pipas, nunca tinha visto tantas pipas. Elas flutuam no céu azul e límpido acima da praia de Copacabana, aparecem nos arredores da cidade, passando pelo reluzente bairro de Recreio, nas colinas cobertas de árvores, nas comunidades de Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, na colorida Rocinha, nos parques do Leblon, onde as pessoas passeiam com seus cachorros e saem de shoppings protegidos.
Em todos os cantos da metrópole do Rio de Janeiro, com 6,5 milhões de habitantes, as pessoas empinam pipas: crianças, jovens, homens e mulheres, pais e mães. Pobres, ricos, preocupados, felizes, queer, héteros, religiosos, ateus, solitários, amados, passando por um término, de folga, dando um tempo, apreciando a vista do terraço, sentindo a areia entre os dedos dos pés, curtindo com quem amam. Eles movem os braços como maestros no Royal Albert Hall, seguram a linha branca com calma e paciência entre os dedos, puxam a linha nervosamente, como se estivessem tentando fisgar um peixe. Na ponta da linha, lá no alto, voa uma festa colorida: uma criação de papel e plástico com seis pontas, estampada com a bandeira do Brasil, um texto, uma foto pessoal, o logo da Nike, bolinhas brancas sobre um fundo rosa, padrões astecas.
Estou aqui há duas semanas e passei muito tempo nas comunidades da favela do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Nessas comunidades, as pipas se tornaram um guia. Porque sim, aqui é um labirinto, um labirinto incrivelmente acolhedor e, às vezes, hostil. A vista do alto é impressionante: as casas amontoadas, as cores, os varais, os becos com curvas imprevisíveis, uma quantidade vertiginosa de escadas que levam a uma quantidade vertiginosa de casas; algumas janelas têm cobertores de fleece no lugar de vidros. As pessoas ficam me olhando porque não reconhecem meu rosto — todo mundo se conhece por aqui e fica de olho nas coisas —, mas também me cumprimentam e sorriem educadamente; faço o mesmo. As crianças correm, brincam e leem livros nas ruas. Um bairro como este tem sua própria orquestra; ouço sons por toda parte: motores ligados, música vindo de uma casa ali perto, homens construindo mais um andar numa casa. E também, às vezes, de madrugada, ao amanhecer ou à noite: tiros. Às vezes, um ou dois; às vezes, mais, por um período prolongado. Um som que faz tudo parar: os becos ficam silenciosos, sinto que o clima no bairro mudou, não ouço as crianças. Não vejo as pipas. Quando o perigo passa, as pipas estão por toda parte, como alegres pontos de segurança: “está tudo bem por aqui.”
Uma pipa foi feita para ficar no ar. É livre e presa ao mesmo tempo. Está no céu, mas também faz parte do chão, onde alguém segura a linha frágil. Tanto a pessoa quanto a pipa tentam encontrar a brisa certa, não tocar o chão, não esbarrar em nada nem em ninguém, não se enroscar numa teia de fios elétricos emendados. A liberdade traz consigo o risco da prisão. Para mim, acima de tudo, isso simboliza as crianças das comunidades. Elas são tão livres quanto uma criança deveria ser, mas nascem numa área onde a luta para se tornar aquilo que se quer é duas vezes mais difícil. Crescem duas vezes mais rápido — nunca vi crianças tão maduras e ágeis. Elas testemunham coisas que uma criança, ou qualquer ser humano, não deveria testemunhar, e enfrentam muitos dias de incerteza num bairro que, no geral, é acolhedor e afetuoso. Não têm todas as opções que uma criança de Copacabana tem. Às vezes, só veem os pais, que trabalham duro para conseguir uma vida modesta, à noite ou de madrugada. Ao contrário das crianças do Solar e do Edumais, nem todas as crianças do Cantagalo, do Pavão ou do Pavãozinho — 4.000 ao todo, enquanto o Solar, parceiro do EduMais, só tem espaço para cerca de 400 crianças — têm a chance de passar o dia todo na escola: as escolas públicas oferecem apenas quatro horas de aula por dia. Então, sim, a vida aqui no morro é difícil e, sim, nem sempre é fácil ser criança.
Há pipas sem fim por aqui. E uma pipa que cai ou se rompe é substituída com cuidado, assim como uma batalha perdida nunca significa que a causa está perdida. É um pequeno pedaço de liberdade que custa apenas dois reais – por esse preço, dá para comprar quatro pirulitos de cereja perto da estrada principal que leva à favela, mas esses pirulitos proporcionam muito menos diversão duradoura. Vou levar algumas pipas para casa e dar uma para minha mãe, meu pai, meu irmão e um amigo; vou pendurar uma acima da mesa onde escrevo mais histórias sobre Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, sobre as crianças e as pessoas dessas comunidades. Sobre a infinidade de sorrisos por aqui e a mentalidade de cuidar uns dos outros. Sobre como essas comunidades são malvistas no centro, nas áreas ricas; sobre as pessoas que lutam para ter uma vida digna; sobre crescer em um ambiente violento. E, acima de tudo, vou escrever sobre as pipas que voam pelos céus azuis de toda a cidade do Rio de Janeiro, transformando todas essas pessoas diferentes, de origens e classes sociais diferentes, em uma só coisa: seres humanos.
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