Comecei minha jornada com a EduMais no início de 2017 como professora de inglês. Para mim, essa foi uma oportunidade de conhecer as pessoas das comunidades do Rio e tentar me conectar com elas e descobrir como poderia causar um impacto positivo em suas vidas.
Desde o início, me identifiquei muito com a abordagem da EduMais, que não se limitava a ensinar inglês, mas também a criar um ambiente de Disciplina Positiva, onde as crianças pudessem ter modelos que demonstrassem comportamentos positivos, como ficar em silêncio em vez de gritar. A comunidade é tão caótica que esse tipo de ensino pode fazer uma diferença real no comportamento das crianças, e em pouco tempo vi mudanças incríveis em alguns dos alunos mais indisciplinados.
No final de 2017, me ofereci para planejar o currículo do grupo mais velho de alunos (17 a 19 anos) para o ano seguinte. Na época em que fazia o planejamento, eu vinha lendo muito sobre empreendedorismo social e fiquei empolgada, imaginando que conteúdo instigante, empoderador e inspirador poderia incluir nas nossas aulas de inglês. Então tive uma ideia: poderíamos oferecer um curso de empreendedorismo em inglês!

Anna com alguns dos alunos do curso de empreendedorismo
Essa ideia se tornou realidade e, no início deste ano, lançamos nosso curso de Empreendedorismo em Inglês. Os alunos estão trabalhando em projetos incríveis, como retirar o lixo da comunidade, criar espaços culturais e educativos e tornar as ruas mais seguras e bonitas. Depois de ver esses projetos maravilhosos se desenvolverem, agora espero ajudar alguns alunos a transformá-los em realidade.
Pensando nisso, decidi me inscrever no Ironman 70.3 para arrecadar fundos e tirar do papel os projetos dos meus alunos. O Ironman 70.3 consiste em uma natação de 1,9 km, um percurso de bicicleta de 90 km e uma meia maratona (21 km), e acontecerá no final de setembro deste ano.
Não sou novata em desafios física e mentalmente exigentes, mas treinar para esse triatlo monstruoso foi, de longe, o maior desafio da minha vida. Nessa jornada, já fui atacada de madrugada, levada ao pronto-socorro e desabei em lágrimas de dor e frustração inúmeras vezes. Agora falta um mês para a prova, estou em péssima forma, e a única coisa que me mantém seguindo em frente é pensar no quanto as crianças com quem trabalho vão se beneficiar do dinheiro arrecadado.

O grupo de empreendedorismo com os proprietários do El Misti Hostel
Vamos começar pela natação. Ah, natação, como eu te odeio! Meu principal problema com a natação é que, com o rosto submerso na água, não consigo respirar por nenhuma das vias respiratórias. Então, quando meu coração dispara enquanto me debato na água, começo a entrar em pânico pensando na próxima lufada de ar. E os tubarões, tubarões por toda parte! Vejo uma sombra — tubarão; os óculos embaçam — tubarão; uma pedra — tubarão. Eu sei, é completamente irracional, mas minha mente simplesmente não para.
Basicamente, minha natação é uma demonstração de falta de coordenação, combinada com um medo completamente irracional. Preciso treinar muito se quiser ter alguma chance nessa modalidade que tanto detesto. Meu treino de natação mais longo para essa prova até agora foi na semana passada, quando nadei 1,5 km em águas abertas e fiquei tão exausta que, no dia seguinte, mal conseguia me mexer.

Natação no mar em Copacabana
Sobre ciclismo, vou ser sincera: sempre considerei esse um esporte para homens de meia-idade com barriga de cerveja que se acham o máximo usando roupa de lycra. Em um triatlo, pensei, é o passeio de recuperação entre a natação e a corrida; além disso, eu até que levo jeito para andar de bicicleta… Mas logo percebi que: a) não levo jeito nenhum; b) a etapa de ciclismo do Ironman seria a mais extenuante e a mais crucial das três modalidades; e c) treinar para ela me transformaria em uma espécie de zumbi funcional.
Comprei uma bicicleta de triatlo usada e veloz (Gonzalez) no início do ano e saí para treinar com ela em Copacabana às 5am certa manhã. De repente, um garoto que não tinha mais de 15 anos bloqueou a ciclovia, então freie e só então percebi que ele queria a Gonzalez.
“NÃO, NÃO, POR FAVOR, ALGUÉM ME AJUDE!”, gritei, enquanto ele me encarava e segurava com firmeza o guidão da minha bicicleta.
O tempo pareceu desacelerar bastante e pensei: “é agora”; meus gritos desesperados por ajuda se perderam nas ruas escuras e desertas. Eu sabia que lutar não era uma opção, pois tinha ouvido falar de pessoas que foram esfaqueadas e mortas por causa de suas bicicletas. Eu tinha ganhado impulso suficiente para passar por ele, mas perdi o equilíbrio quando ele me agarrou e caí no chão. Esperei que ele me puxasse e levasse minha bicicleta… mas consegui me levantar, estava em movimento, tremendo e aterrorizada demais para olhar para trás. Pedalei com todas as minhas forças e consegui escapar.

Grupo de ciclismo Equipe Fox
Percebendo que pedalar sozinho não era mais uma opção, entrei para uma equipe de ciclismo. Uma equipe de ciclismo que treina às 4am. Nas noites anteriores aos treinos, literalmente fico enjoada quando chega 11pm, sabendo que só me restam algumas horas para dormir. Meu filho de dois anos acorda pontualmente por volta da meia-noite, e tento não ficar triste enquanto vejo meu tempo de sono desaparecer aos poucos. Muitas vezes, já fiz mais de duas horas de treino intenso de bicicleta e corrida antes de começar a trabalhar às 7am.
Com o grupo, percebi que eu não era nem de longe tão boa quanto imaginava. Eu me levantava às 3h para encontrá-los e assistia, sem poder fazer nada, enquanto eles partiam. A única barriga de cerveja à vista era a minha. Eu ficava sozinha no escuro, xingando a vida e o fato de realmente ter pagado para passar por aquela tortura. E tudo fica pior às 3 da manhã. Acredite em mim.
Por fim, depois de alguns meses horríveis, fiquei mais rápida e consegui acompanhar o grupo. Eu tinha ficado muito mais forte: entrar para o grupo foi uma ótima decisão! Com uma pequena ressalva: se há algo mais perigoso do que pedalar sozinha em Copacabana de manhã cedo, é pedalar em um pelotão ou em formação de grupo, que é como treinamos. As altas velocidades e a proximidade entre os ciclistas deixam pouca margem para erros.

Treino de ciclismo em subida na Vista Chinesa
Certa manhã, em particular, eu estava fazendo meu melhor percurso de bicicleta até então e estava absolutamente exausta. Fiz de tudo para acompanhar o grupo, embora não soubesse por quanto tempo minhas pernas aguentariam manter o ritmo de 38 km/h. Em uma fração de segundo, minha roda dianteira ficou lado a lado com a do ciclista à minha frente e, no segundo seguinte, caí com força.
Não me lembro da queda, só de estar muito confusa. Achei que estava conversando com Daniel, meu companheiro, no supermercado uma semana antes, e fiquei horrorizada ao perceber a realidade e ver todos os outros ciclistas e uma enfermeira militar ao meu redor, dizendo coisas em português. Meus ouvidos zumbiam e eu tremia de frio, pressionando minha camiseta suada contra a testa para tentar estancar o sangramento. Não fazia ideia da gravidade dos ferimentos. Fui colocada em uma maca tipo concha, com um colar cervical, e levada de ambulância ao hospital.
Inicialmente, os danos pareciam superficiais: alguns pontos no rosto e escoriações na maior parte do corpo. Mas, depois de alguns dias, percebi que o impacto da queda em alta velocidade havia causado danos graves ao ombro, ao peito e às costelas. Eu não conseguia levantar meu filho e, nem preciso dizer, estava proibida de treinar. Não fazia ideia se conseguiria participar do triatlo ou não.

Anna exibindo algumas de suas cicatrizes de batalha
Depois de dois meses e muita fisioterapia, finalmente consigo voltar a praticar um pouco das três modalidades. Meu peito ainda dói e eu gostaria de ter me recuperado 100%, mas simplesmente não tenho tempo. Se até aqui já foi uma luta, o próximo mês certamente vai determinar se vou conseguir ou não, pois estou bem atrasada em relação ao meu cronograma de treinos por causa do acidente.
No entanto, não vou desistir! Já sacrifiquei muito do meu tempo pessoal e com a família por causa desse evento (mais de 300 horas) e investi sangue, suor e lágrimas para chegar até aqui. Mas, acima de tudo, está minha meta de arrecadação. Tudo o que a vida possa me reservar não é nada em comparação com os desafios que as crianças da comunidade enfrentam. Todos os alunos com quem trabalho querem fazer faculdade; todos querem ter uma vida em que possam se sentir seguros, ter uma renda estável e, talvez, um dia viajar e conhecer o mundo. Também acredito nos projetos deles e sei que, com alguma ajuda, podem se tornar empreendedores de sucesso.
Por favor, ajude-me a arrecadar US$ 7.030 (US$ 100 por cada milha do evento) para que meus alunos possam tirar seus belos projetos do papel. Se eu alcançar minha meta de arrecadação, tudo isso terá valido a pena. Seja generoso e ajude a me dar forças para cruzar a linha de chegada e ver esses alunos incríveis se tornarem empreendedores!
Obrigada por ler a minha história e obrigada por todo o apoio!
https://www.gofundme.com/iron-man-703-for-edumais

Anna com o filho na praia de Copacabana
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