Esta semana, a EduMais foi destaque no jornal holandês Het Algemeen Dagblad, com uma reportagem sobre o Curso de Design de Jogos Sérios que realizamos durante a colônia de férias em janeiro.
Aqui você encontra o link para a versão em holandês da matéria. Abaixo, uma versão traduzida da matéria sobre essas 4 semanas especiais que passamos com os adolescentes e o pessoal da Games of Health.
Um grupo de especialistas holandeses em videogames visitou as favelas brasileiras para ensinar crianças a criar seus próprios jogos. O design de jogos pode ajudar crianças que vivem em uma das favelas mais conhecidas do mundo?
O calor é sufocante no Rio de Janeiro. Ao longo das praias e avenidas de Copacabana e Ipanema, brilham as fachadas envidraçadas de arranha-céus e edifícios comerciais, mas, no alto dos morros das favelas, a realidade é outra. São comunidades marcadas pela criminalidade e pela pobreza, onde milhões de brasileiros precisam lutar para sobreviver todos os dias. A polícia não gosta de aparecer por lá; a ordem é mantida por facções do tráfico fortemente armadas. É raro ver pessoas de fora por ali. Não é um ponto turístico.
Felizmente, Jurriaan van Rijswijk (52) tem um guia e anfitrião local. “Quando encontramos alguém com uma arma, meu guia disse imediatamente: ‘Ele é um professor.’” Em outras palavras: “Não atire, este homem é professor. Ele está ensinando minha filha.” Jurriaan pode continuar. Ele faz parte temporariamente da comunidade, como professor de uma área especial. “Estamos aqui para ensinar as crianças a criar um videogame.”
Jurriaan chegou ao Rio de Janeiro com a esposa, Sandra (51), e dois colegas: o especialista em jogos Rob Tieben (39) e o designer de jogos Menno van Pelt-Deen (35). Todos fazem parte da Games for Health Europe, uma fundação criada por Jurriaan e Sandra para promover técnicas de jogos na área da saúde. Normalmente, eles participam de projetos como jogos para programas de reabilitação — trabalhar com educação no terceiro mundo é uma exceção.
“Tudo começou quando, por acaso, entramos em contato com Diana Nijboer, fundadora da Fundação EduMais”, explica Jurriaan. A fundação de Nijboer é especializada em educação nas favelas. “Diana estava procurando pessoas dispostas a dar aulas práticas. Queríamos ajudar, mas trabalhamos com jogos. Então esse seria o nosso tema.”
O plano? Viajar ao Brasil por um mês para organizar um curso por lá. Nijboer usou seus contatos locais para cuidar da organização e da hospedagem, enquanto a fundação de Jurriaan estabeleceu seus próprios contatos no mercado local de jogos. Será que eles topariam dar aulas como convidados? “O Brasil é um país enorme e tem sua própria indústria de jogos. Alguns desenvolvedores são das próprias favelas e ficaram interessados na hora.” O experimento começaria no início de janeiro.
Para Jurriaan, Sandra, Rob e Menno, não era a primeira vez que estavam diante de uma sala de aula. Jurriaan: “Já demos aulas de design de jogos em prisões holandesas e no Suriname. Mas este programa no Brasil foi a versão mais abrangente.” Isso porque, desta vez, Jurriaan e seus colegas se concentraram não apenas nos alunos, mas também nos futuros professores. “Queríamos não só ensinar as crianças, mas também ensinar os jovens a ensinar. Por isso, envolvemos ‘instrutores’, jovens que podem dar continuidade a este curso.”
Junto com um grupo de desenvolvedores locais, os holandeses deram às crianças um curso intensivo de design de jogos, desde desenhar personagens até programar o próprio software. No fim do mês, elas haviam criado sua própria versão de Pac-Man. As crianças substituíram o personagem amarelo por um médico que leva vacinas contra a Covid. Os fantasmas viraram bacilos do vírus. Não é um resultado ruim, mas, segundo Sandra, o projeto está longe de terminar: “Agora estamos conversando com organizações locais. Nosso objetivo é que elas possam ajudar os instrutores a ensinar outras crianças e, assim, construir uma nova trajetória educacional.”
Quem pensa em um lugar como as favelas naturalmente presume que os jogos não sejam prioridade. Mas, segundo Jurriaan, esse raciocínio deixa de lado o panorama geral: “O mais importante é que as crianças aprendam a usar a criatividade. Muitas não conseguem ou não querem programar, mas design de jogos também envolve desenhar, criar conceitos ou compor letras e músicas.”
Rob Tieben concorda. Ele escreveu uma tese sobre teoria dos jogos aplicada e vê muito de suas pesquisas na prática cotidiana. “Brincar é uma forma universal de as pessoas interagirem com o mundo. Nas favelas, por exemplo, o futebol é muito popular.” Combinado aos recursos que estão ao alcance de todos graças à tecnologia digital, como os smartphones, o design de jogos pode se tornar uma habilidade poderosa. “Essas crianças têm muita experiência de vida e são muito inventivas. Conseguem descobrir muitas coisas por conta própria, mas precisam dar os primeiros passos para desenvolver um conjunto de habilidades.”
Essas crianças agora são desenvolvedoras de jogos profissionais? Não, explicam Rob e Menno. “Não dá para aprender tudo em três semanas”, diz Rob, “mas é possível plantar uma semente. E eles também têm computadores com acesso à internet. Podem continuar se desenvolvendo. Espero que este curso seja um ponto de partida para que possam seguir aprendendo por conta própria. Agora eles sabem que o trabalho deles vale dinheiro na internet. Seria ótimo se pudessem ganhar algo com isso. E os instrutores podem repetir esse processo em outros lugares.”
Menno concorda: “Não trabalhamos apenas com as crianças, mas também com desenvolvedores de jogos locais. Eles agora estão envolvidos e gostariam de continuar participando.” Ele fala por experiência própria: embora esta tenha sido sua primeira visita às favelas, também criou programas educacionais para estudantes e profissionais da indústria de jogos ao longo da última década.
Segundo ele, o verdadeiro propósito da visita está no futuro: “Você não ensina às pessoas de lá coisas que elas não possam aprender sozinhas, mas as ajuda a dar o primeiro passo. Você mostra que um programa como esse é possível. Agora, esperamos que mais organizações e favelas queiram participar. As crianças veem que podem criar algo e, a longo prazo, podem surgir mais projetos. Essa foi a diferença que fizemos.”